9 de ago de 2013

O AMOR NUNCA ACABA TOTALMENTE - TEXTO DE MARCELLA BRAFMAN


Eles sempre imaginaram que aconteceria como nos filmes. Ela com outro, ele com outra. Ela feliz, ele também. Alguém falando ao telefone, enquanto o outro segurava uma sacola cheia de legumes. No supermercado ou numa padaria qualquer. Teria que ser em um desses lugares que as pessoas vão sem planejar, só porque precisam comprar papel higiênico ou duzentos gramas de peito de peru.
O justo seria se ambos estivessem magros. Os respectivos não importa, mas eles não, tinham que manter a forma de um ano atrás, quando namoraram. Dariam um cumprimento formal, mas nem tanto. “Oi, quanto tempo!” “Nossa! Digo o mesmo”. Não passaria disso. Não tinham certeza se apresentariam por educação os novos companheiros. Em alguns filmes isso acontece, mas é algo que deixa quem assiste desconfortável. Então, melhor não.
Seriam 50 segundos de desespero. Ela cumprimentaria a moça dele, só para não ficar chato. O atual dela, entenderia de cara quem ele é, e apressaria o passo para sair de lá o mais rápido possível, sem fazer cena de ciúmes. Depois desse teatro mal ensaiado e mecânico, os dois fingiriam que nada aconteceu. Vida que segue. Um para um lado, outro para o outro. Bom te ver.
No dia que eles se encontraram, estava um sol de rachar. O jornal anunciou que era o mais quente em dois anos. Poderiam jurar que era o mais quente das suas vidas. Entre um compromisso e outro, ela lembrou que em algum momento precisava parar na farmácia para comprar uma escova de dente nova. Entre uma reunião e outra, ele lembrou que aquele remédio para a caspa já estava acabando. Era uma segunda-feira de janeiro.
A cidade deve ter no mínimo 300 farmácias espalhadas na região. Em tempos modernos, onde supermercados prometem ter tudo e deliverys resolvem qualquer questão, é muito difícil encontrar algum conhecido na drogaria. A farmácia em si, já pode ser bem constrangedora. Mas eles estacionaram o carro na mesma, naquela avenida movimentada, em torno de sete horas da noite. Ela resolveu ir depois da academia. Suada, com o cabelo preso num coque muito mal feito. Já ele, preferiu ir depois de tomar um chope com o sócio. Sabe como é, né? Não é fácil negar uma gelada naquele calor infernal.
Bem atrás de uma prateleira com setenta tipos de absorventes, ele a reconheceu segurando uma escova de dente do Bob Esponja. Ela desviou o olhar e logo já trocou o produto por outra que prometia escovar a língua e cinquenta outros lugares da boca. Seu rosto completamente sem maquiagem alguma e com alguns resquícios de suor no buço fez de tudo para fingir que aquele que segurava dois pacotes de camisinha a dois metros de distância, não era ele. Os dois ficaram vermelhos e por alguns segundos lembraram o quanto era divertido fazer esse tipo de compra idiota juntos. A lembrança sumiu como uma assombração quando veio na mente de ambos, o motivo pelo qual terminaram.
Em meio a esse turbilhão de pensamentos, se encararam como dois adultos. Ele, com as mãos vazias, depois de isolar o pacote de preservativo no meio da seção de esmaltes. Ela, com um sabonete na mão, porque mulher tem disso de segurar qualquer coisa quando fica nervosa.
Pela primeira vez em um ano, se olharam de verdade. As paredes e luzes brancas da farmácia não os deixaram mentir. Deram um abraço rápido. Ah, como ela sentia falta daquele restinho de perfume, ainda escondido no pescoço dele depois de um chope e fumaças de cigarro. Ah, como ele sentia falta de encontrá-la depois da aula de spinning, suada e cansada, com as bochechas vermelhas igual uma boneca. Não disseram uma palavra. Não economizaram nos sorrisos tortos. A vida dos dois não havia mudado tanto, mesmo depois de tantos meses. Estava estampado na cara.
Nem tudo acontece como nas comédias românticas bobas que eu assisto, ela pensou. Depois dessa, acho melhor voltar para o bar, ele teve certeza. Um para um lado, outro para o outro. Bom te ver. Talvez seja isso. O amor nunca acaba totalmente. Ele continua em algum reencontro muito inesperado.

O texto é de Marcella Brafman, uma jornalista que sofre de imaginação fértil que só passa escrevendo. Escreve em seu blog, Sem Clichê.


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