22 de jul de 2013

A AGENDA DO CELULAR


Eu estava de férias, contudo sobrou um tempinho pra lembrar que ainda tinha um celular que servia não só pra checar os emails. Passei pelos meus contatos e lá estava seu nome, na verdade tinha uns cinco. Fulano, fulano outra operadora, fulano casa, fulano mãe... Tenho saudades da sua mãe. Bem, a questão é que o sol naquela tarde brilhou mais um pouquinho quando ao ver seu nome lembrei do teu sorriso e mãos e cheiro e barba crescida. Aquilo tudo me abriu um sorriso e uma vontade de te ligar. Por incrível que pareça nem lembrei daquele meu medo infantil de imaginar o que a outra pessoa pensaria e liguei de primeira. Foi a primeira vez que aconteceu isso. Acho que deveria ser o efeito férias após um ano e onze meses de mesa lotada, emails e telefonemas à todo segundo. Escritórios meia-boca esses que só nos liberam pra não ir pra mesa de um fórum.
Um toque e eu já tava imaginando que você não atenderia de primeira - eu e essa minha mania pessimista de tudo. Tenho vocação pra ser solitária por opção mesmo. Nem mesmo o segundo toque chegou e ouvi mais uma vez tua voz atendendo o celular com uma simpatia tão grande que me dava raiva. Nos perguntamos sobre a faculdade, trabalho e sonhos, rimos sobre alguns pequenos micos pagos em algum restaurante e finalmente veio a palavra saudade. Que bom você falou primeiro, porque sou frouxa demais pra falar e narcisista demais pra sentir. Você sempre um passo à frente. Graças! Naquela tarde eu sabia que você teria aula, sabia até que começaria às 14:30 e você provavelmente já estaria quase saindo de casa, então se eu quisesse salvar minha semaninha de férias medíocre teria que tomar um tapa na cara de mulher adulta e te chamar pra sair. E tinha que ser aquela hora. Foi arriscado por que não seria apenas sair comigo, seria faltar aula, dispensar ''amiguinhas'', deixar de ver a galera...
Pra calar minha boca antes mesmo de me beijar aceitou na hora. Não que eu estivesse pensando em beijo. De verdade, não estava.
A gente marcou uma hora e meia depois. Claro que me virei em mil pra tentar ajeitar aquela cara de quem já estava há dois dias em casa só comendo besteira e assistindo filmes. Também tinha o lance da roupa, mas aí lembrei que ia sair com o único cara em que eu não precisava por uma casca. A gente já se conhecia o bastante pra tentar parecer o que não é. Mas a cara eu precisava arrumar. Botei shorts, regata preta e uma bolsa que coubesse minha pasta de documentos porque à noite planejava passar na faculdade só pra deixá-los na secretária pra renovar a bolsa. Ilusão minha!
Mesmo algum tempo depois, outros caras e garotas depois a nossa sintonia era a mesma. Nossa risada ainda vibrava junto e o assunto não parava. Eu tava feliz porque tava desatolando minhas férias que nem pensava em lembrar de querer beijá-lo. Só fui perceber isso quando senti de novo aquela barba por fazer nas minhas bochechas tentando ficar comigo. O problema era esse, mesmo pagando de durona, de mulher de mesas pomposas de trabalho, de muitos emails, muitos problemas eu queria muito mais que uns beijinhos quando a gente se encontrasse, eu precisava dele comigo todas as terças à tarde naquele banco. Mas ele era viajado demais, inteligente demais, esperto demais, procurado demais pra se prender à tão pouco. Então recuei. Conversamos um pouco mais como amigos maduros. Não passou dos próximos 10 minutos.
Eu, de alguma forma deixei meu medo ser ser só ser mais perceptível que o papo bom que a gente tava tendo. E de outra forma bem mais linda ele me fez entender que quando duas pessoas estão destinadas à ficarem juntas elas simplesmente ficam não pelo peso de ter um namoro, mas pelo prazer de ter um relacionamento.
Bom, ficamos mais que o planejado no banquinho de terça à tarde. Só fui renovar a bolsa de estudos no outro dia na faculdade e ele teve que pegar o ultimo metrô das 11 pra voltar pra casa. Nos beijamos uma, duas, três, infinitas vezes e eu não senti mais medo do futuro. Voltei pra casa sem pensar mais nas férias ferradas, o outro dia fui à praia e à academia. No outro ao cinema. Sozinha! Só no outro a gente se falou e eu nem percebi. Não porque eu não gostasse ou não lembrasse mais dele. Mas porque aquele encontro serviu mais pra eu me encontrar do que para encontrar ele.


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